Sapporo — um nome ainu e o ideograma 幌, que vive quase só aqui
Sapporo é a maior cidade da ilha de Hokkaido: em número de habitantes, o Japão a coloca em quarto lugar no país, depois de Yokohama, Osaka e Nagoya. O nome veio da língua ainu: na versão mais comum, remonta a «sat-poro-pet», «rio grande e seco», mas os dicionários também apresentam a versão «sari-poro-pet» — «rio com larga várzea de juncos». Os ideogramas 札幌 foram escolhidos pelo som, não pelo sentido.

Vamos examinar duas versões concorrentes da origem do nome «Sapporo» e ver como os caracteres 札幌 apenas transmitem o som de uma palavra sem relação com seu significado. De passagem, descobriremos por que no centro da cidade não há nomes de ruas, mas números, de onde vêm a cervejaria e a Olimpíada de 1972 e como uma lei moderna reconheceu os ainus como povo indígena de Hokkaido.
De «sat-poro-pet» ao ateji 札幌: dois caminhos para um mesmo nome
O nome Sapporo veio da língua ainu, não do japonês: os próprios ideogramas 札幌 foram escolhidos pelo som da palavra e não carregam seu sentido — um caso típico de ateji. A versão mais difundida remonta o nome a «sat-poro-pet», em que sat significa «seco», poro — «grande», pet — «rio». Assim, ao que parece, chamavam o rio Toyohira ou um de seus afluentes, que durante séculos ora transbordava, ora secava.
Por que não existe só uma versão
Há também outra leitura do mesmo nome — «sari-poro-pet», «rio com larga várzea de juncos»: os dicionários japoneses apresentam as duas versões como equivalentes, e é impossível resolver a disputa porque não se conservaram registros escritos ainus do próprio nome. Os caracteres 札 «etiqueta» e 幌 «toldo» foram escolhidos apenas pela semelhança sonora: procurar neles o sentido do nome original não faz sentido.
Nomes semelhantes — por toda Hokkaido
As raízes ainus são facilmente reconhecíveis em outras cidades da ilha. Otaru (小樽), segundo uma das versões, remonta ao ainu «ota-oru-nai» — «riacho em margem arenosa», e Wakkanai (稚内), a cidade mais ao norte do Japão, a «yamwakkanai», «riacho de água fria». As terminações -nai e -pet nesses nomes são palavras ainus diferentes com o significado de «rio, riacho».
Uma cidade sem nomes de ruas: neve, cerveja e a Olimpíada de 1972
No centro de Sapporo não há nomes de ruas convencionais. O endereço se compõe do número «jo» — a contagem a partir do parque Odori para o sul ou para o norte — e do número «chome» — a contagem a partir do rio Sosei para o leste ou oeste. Essa malha foi demarcada ainda na fundação da cidade, tomando como modelo Quioto, dividida em quarteirões.
O festival de neve que começou com estudantes
O primeiro festival de neve em Sapporo aconteceu em 18 de fevereiro de 1950: estudantes do ensino médio, sob a orientação de um professor de desenho, esculpiram no parque Odori apenas seis esculturas de neve, e cerca de 50 mil pessoas viram a festa. Desde então o festival se tornou anual e um dos principais eventos de inverno do Japão, embora nos primeiros anos sua escala fosse bem mais modesta que a atual.
Cerveja e a Olimpíada de inverno
Em 1876, abriu-se em Sapporo a cervejaria do departamento Kaitakushi — a primeira cervejaria do país construída e administrada por japoneses; dela vem a história da marca «Sapporo». E em 1972 a cidade recebeu a Olimpíada de inverno — a primeira na história dos Jogos de inverno realizada no continente asiático.
Do departamento Kaitakushi ao reconhecimento dos ainus em 2019
Em 1869, o governo Meiji renomeou a ilha setentrional Ezo como Hokkaido e criou um departamento para seu desenvolvimento — o Kaitakushi. O local para o futuro centro administrativo foi escolhido na planície de Ishikari, junto ao rio Toyohira: além de terras férteis, buscavam ali um ponto de apoio para eventuais complicações nas relações com a Rússia por causa de Sacalina. O edifício principal do Kaitakushi em Sapporo foi concluído em 1873.
Os ainus — povo indígena reconhecido em 2019
Antes da chegada dos colonos japoneses, Hokkaido foi habitada por séculos pelos ainus — povo indígena da ilha, com língua própria e economia baseada na caça, na pesca e na coleta. Durante muito tempo seu status no Japão não foi oficialmente reconhecido, e só em 2019 o parlamento do país aprovou uma lei de política em relação aos ainus, que pela primeira vez os chamou explicitamente de povo indígena da parte norte do país.
幌 — o toldo que quase não sai do nome da cidade
A leitura on de 幌 é コウ (kō), a kun é ほろ (horo), e significa «toldo, tenda, cobertura». Na língua moderna, essa palavra quase não aparece isoladamente, exceto no nome Sapporo e na palavra 幌馬車, «carroça com toldo», isto é, carroça coberta. Nem a história da cidade nem sua aparência têm relação com o sentido do caractere — é pura coincidência sonora.
幌 — значение: toldo, tenda, cobertura — онъёми: コウ — кунъёми: ほろ、とばり — 13 штрих(ов). 幌 — «toldo, tenda»: com a palavra horo se designa a capota removível de uma carroça ou veículo, e 幌馬車 — a carroça coberta. No nome Sapporo, esse caractere faz parte do ateji: foi escolhido pelo som, não pelo sentido.
O primeiro caractere — 札, «etiqueta», que também não tem relação
O primeiro caractere do nome, 札, sozinho significa «etiqueta, rótulo» e aparece em palavras modernas — por exemplo, em 千円札, «cédula de mil ienes» — com muito mais frequência que 幌. Mas ele também entrou no nome Sapporo apenas pelo som: não há ligação semântica entre «etiqueta» e o ainu «grande rio».
| Japonês | Leitura | Tradução |
|---|---|---|
| 札幌 | Sapporo · Sapporo | Sapporo — o próprio nome da cidade |
| 幌 | horo · horo | Toldo, tenda — o mesmo caractere que no nome da cidade |
| 幌馬車 | horobasha · horobasha | Carroça coberta, literalmente «carroça com toldo» |
| 札 | fuda · fuda | Etiqueta, rótulo — o primeiro caractere do nome da cidade |
| 雪まつり | Yuki Matsuri · Yuki Matsuri | Festival de neve, que acontece em Sapporo desde 1950 |
| 開拓使 | Kaitakushi · Kaitakushi | Kaitakushi — o departamento que construiu Sapporo na era Meiji |
Escreva 幌 seguindo as guias — o caractere do «toldo», que em japonês vive quase só no nome Sapporo.
Perguntas frequentes
- Sapporo é «rio seco» ou «rio entre juncos»?
- O nome veio da língua ainu, não do japonês: os caracteres 札幌 apenas transmitem seu som. A versão mais comum remonta o nome a «sat-poro-pet» — «rio grande e seco», provavelmente o rio Toyohira. Mas os dicionários também apresentam outra variante, «sari-poro-pet» — «rio em várzea de juncos», e não há consenso.
- O que significam os ideogramas 札幌?
- Por si sós, 札 significa «etiqueta», e 幌 — «toldo, tenda», mas no nome da cidade esses significados não têm relação: os caracteres foram escolhidos apenas pelo som da palavra ainu. Isso se chama ateji — um modo de escrita em que os ideogramas são tomados pela leitura, não pelo sentido.
- Desde que ano acontece o festival de neve em Sapporo?
- O primeiro festival de neve foi realizado em 18 de fevereiro de 1950: estudantes do ensino médio, sob a supervisão de um professor de desenho, esculpiram no parque Odori seis esculturas de neve, e cerca de 50 mil pessoas vieram vê-las. Hoje é um dos maiores festivais de inverno do Japão, com gigantescas esculturas de gelo e neve.
- É verdade que a Olimpíada de inverno de Sapporo foi a primeira na Ásia?
- Sim, os Jogos de inverno de 1972 em Sapporo foram a primeira Olimpíada de inverno realizada no continente asiático. As competições reuniram 35 países e pouco mais de mil atletas — modesto pelos padrões atuais, mas para o Japão daquela época foi um evento enorme.
- Quem são os ainus e como são reconhecidos hoje no Japão?
- Os ainus são o povo indígena de Hokkaido e territórios vizinhos, com língua própria, distinta do japonês, e economia baseada na caça, na pesca e na coleta. Durante muito tempo o Estado não reconheceu seu status especial, e só em 2019 o Japão aprovou uma lei que pela primeira vez chamou oficialmente os ainus de povo indígena da parte norte do país.
- Por que em Sapporo, em vez de nomes de ruas, há números?
- O centro de Sapporo foi construído do zero na era Meiji segundo um plano regular: tomou-se como modelo Quioto, dividida em quarteirões, e a cidade foi repartida em retângulos regulares. Por isso o endereço se compõe dos números «jo» e «chome» — a contagem dos quarteirões a partir do parque Odori e do rio Sosei —, e não de nomes de ruas, como na maioria das cidades japonesas.
Fontes
Atualizado: 2026-09-15